Maldade: escolha, ignorância ou rebeldia espiritual?

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Fonte: https://folhaespirita.com.br

 

Em um mundo marcado por guerras, violência urbana, polarizações e conflitos cotidianos, a pergunta retorna com força: se Deus é amor, por que existe a maldade? O tema, presente diariamente no noticiário e nas relações humanas, foi o ponto de partida da conversa da Folha Espírita com o médico psiquiatra Roberto Lúcio Vieira de Souza (foto), membro da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil) e da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais (AME-MG) e coordenador do Internato de Saúde Mental do curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, junto ao Hospital Espírita André Luiz.

Ao longo da entrevista, Roberto Lúcio aborda a maldade sob duas perspectivas complementares: a espiritual e a psiquiátrica. Fala sobre livre-arbítrio, evolução moral, transtornos de personalidade, ausência de empatia, violência histórica da humanidade e os limites da lei divina. Também discute a possibilidade real de transformação, inclusive de personalidades consideradas antissociais, e destaca que a dor, quando associada à consciência, pode se tornar instrumento de mudança.

Para ele, o mal é transitório, pois parte de um processo evolutivo ainda incompleto. No entanto, a responsabilidade diante dele é imediata, individual e coletiva.

A seguir, destacamos os principais trechos da conversa.

Folha Espírita – Se Deus é amor e misericórdia, como explicar a existência da maldade?

Roberto Lúcio Vieira de Souza – Essa talvez seja a pergunta central. Se Deus é pai amoroso, Ele não poderia ter criado um mal eterno. O que existe é o livre-arbítrio. Somos Espíritos inteligentes e livres. A lei divina não viola essa liberdade. O mal surge quando escolhemos descumprir a Lei de Amor, mas ele não persiste na eternidade, pois é transitório. Serve como aprendizado.

FE – Então o mal é uma escolha?

Roberto Lúcio – É uma escolha dentro de um estágio evolutivo ainda imaturo. Vivemos num mundo de provas e expiações, onde o bem ainda não prevalece. Muitas vezes, acreditamos que a violência, a manipulação ou a força são soluções mais rápidas do que o amor. Essa é a grande ilusão.

FE – A Psiquiatria reconhece a existência da maldade ou prefere falar apenas em transtornos?

Roberto Lúcio – Reconhece que o ato do mal existe, mas busca compreender como ele se estrutura. Em muitos casos, falamos de transtornos de personalidade – antissocial, paranoide, borderline, entre outros. Não são doenças no sentido clássico, e sim padrões de comportamento consolidados ao longo da vida.

FE – É possível nascer “mau”?

Roberto Lúcio – Algumas escolas acreditam que certos traços, como os da psicopatia, aparecem muito cedo e acompanham o indivíduo por toda a vida. Do ponto de vista espiritual, entendo que o Espírito pode retornar trazendo tendências marcantes de existências anteriores. Tendência, porém, não é destino. É ponto de partida.

“O mal não é eterno. É uma escolha transitória dentro de um estágio evolutivo ainda imaturo.”

FE – A ausência de empatia é genética ou construída?

Roberto Lúcio – Costumamos chamar de genética o que muitas vezes é herança espiritual, ou seja, experiências profundamente traumáticas que o Espírito traz e que moldam mecanismos de defesa. A pessoa cria uma “casca grossa” para sobreviver, mas o prazer em fazer o mal já é outra coisa: é uma distorção espiritual mais profunda, uma rebeldia contra a Lei de Amor.

FE – Existe possibilidade real de transformação nesses casos?

Roberto Lúcio – Sempre, mas, muitas vezes, a mudança começa quando a dor vem acompanhada de culpa e reflexão. A dor isolada não transforma. O sofrimento é a dor com consciência. Quando algo toca afetivamente, especialmente alguém que se ama, pode haver um despertar.

“A dor só transforma quando vem acompanhada de consciência.”

FE – O senhor acredita que a humanidade está piorando ou melhorando?

Roberto Lúcio – Melhoramos muito. A violência sempre existiu na história humana. Hoje temos leis, limites, responsabilização. Ainda fazemos o certo, muitas vezes, por medo da punição, e não por convicção moral, mas isso já é um passo. Um dia faremos o bem, independentemente de vigilância externa.

FE – Como lidar com pessoas com tendências agressivas ou destrutivas em nosso convívio?

Roberto Lúcio – Primeiro, entender que não podemos mudar o outro, apenas a nós mesmos. Segundo, se perguntar: “o que essa convivência está me ensinando?” Às vezes, a vida nos coloca diante dessas situações para trabalharmos algo em nós. O que podemos fazer é orar, manter firmeza moral e oferecer o pouco de bem que já conseguimos construir.

FE – A espiritualidade impõe limites à maldade?

Roberto Lúcio – Sim. O livre-arbítrio não é absoluto. A Lei de Causa e Efeito estabelece limites. Há momentos em que o indivíduo é contido para que o mal não atinja quem não precisa passar por determinada provação. E quando há arrependimento sincero, o auxílio espiritual é imediato.

FE – Por que o mal ainda prevalece na Terra?

Roberto Lúcio – Allan Kardec perguntou isso aos Espíritos, e a resposta foi direta: pela omissão dos bons. Muitas vezes, não combatemos a injustiça porque ela não nos atinge diretamente. Até que um dia atinge.

FE – É possível a regeneração completa?

Roberto Lúcio – Em uma única encarnação, talvez não, mas no processo evolutivo, sim. Todos aprendem, aos poucos. A grande questão é que, mesmo quando já não praticamos a violência, ainda podemos vibrar com ela internamente. A transformação verdadeira é interna.

O que diz a Psiquiatria

A Psiquiatria não trabalha com a ideia metafísica de “mal”, mas reconhece comportamentos que causam danos intencionais ou repetitivos ao outro. O foco é compreender os mecanismos psíquicos envolvidos. Vejamos alguns:

  • transtornos de personalidade – quadros como o transtorno de personalidade antissocial, paranoide ou borderline envolvem padrões persistentes de comportamento marcados por impulsividade, ausência de empatia, manipulação ou agressividade;
  • psicopatia e empatia reduzida – estudos apontam que certos indivíduos apresentam dificuldade significativa de experimentar empatia ou culpa;
  • ambiente e desenvolvimento – experiências traumáticas na infância, negligência ou violência podem contribuir para a formação de estruturas psíquicas defensivas.

A transformação é possível? Mudanças profundas são desafiadoras, mas não impossíveis. A intervenção terapêutica, quando há algum grau de insight, pode promover evolução comportamental.

Em síntese: a Psiquiatria busca compreender o funcionamento do comportamento, e não emitir julgamento moral.

Mal moral x transtorno psíquico

Entenda a diferença

É importante ressaltar que nem todo transtorno implica intenção deliberada de fazer o mal. Nem todo ato prejudicial decorre de transtorno mental.

O que diz o Espiritismo

A Doutrina Espírita aborda o mal sob a perspectiva da evolução espiritual:

  • livre-arbítrio – o Espírito é criado simples e ignorante, com liberdade para escolher seus caminhos;
  • Lei de Causa e Efeito – nenhuma ação fica sem consequência. O sofrimento não é punição, e sim resultado educativo das escolhas;
  • mundo de provas e expiações – a Terra ainda é um estágio evolutivo onde o bem não predomina;
  • possibilidade de regeneração – todos os Espíritos estão destinados ao progresso.

Em síntese: o mal é a ignorância transitória diante da Lei de Amor – a evolução é inevitável.

Dor: punição ou aprendizado?

A dor, na visão espírita, não é castigo, e sim instrumento pedagógico.

Dor sem consciência gera revolta e endurecimento.

Dor com consciência gera reflexão, arrependimento e transformação.

“A dor só transforma quando vem acompanhada de consciência.”

O que ensina O livro dos Espíritos

Na questão n. 115, os Espíritos afirmam que Deus cria todos simples e ignorantes, destinados ao progresso.

Na questão n. 121, explicam que o desvio decorre do uso do livre-arbítrio.

Na questão n. 122, esclarecem que o mal nasce da inexperiência, e não de condenação eterna.

Na questão n. 642, ensinam que não basta evitar o mal, é preciso fazer o bem.

Na questão n. 932, indicam que a predominância do mal se relaciona, entre outros fatores, à omissão dos bons.

A leitura das questões n. 115 a 122, 629 a 646 e 932 a 942 oferece base sólida para o aprofundamento da reflexão sobre a responsabilidade moral e evolução espiritual.

Mal não é sentença definitiva

Se o mal nasce da ignorância e do uso equivocado da liberdade, ele não é sentença definitiva, é estágio. Se a dor pode educar quando acompanhada de consciência, ela não é castigo, e sim oportunidade. Se a evolução é lei, ninguém está destinado ao fracasso eterno, mas a responsabilidade é pessoal.

Talvez a pergunta mais honesta não seja por que o mal ainda existe, mas por que, sabendo o que já sabemos, ainda hesitamos em fazer a nossa parte. O mal é transitório. A evolução é inevitável. A escolha de participar desse avanço começa agora, no íntimo de cada um.

 

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