O dilema da falta de atenção e hiperatividade em crianças e jovens

Por Eliana Haddad O Consolador O psiquiatra Bruno Trevisan, espírita, é especialista em infância e adolescência, supervisor do ambulatório de autismo da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, falou nesta entrevista ao Correio Fraterno sobre os frequentes transtornos cognitivos e comportamentais, especialmente sobre o TDAH, que vêm exigindo acompanhamentos multidisciplinares, necessitando não apenas dos profissionais da saúde, mas de toda a sociedade e saiba também o que o Espiritismo tem a dizer sobre o assunto. Como é feito objetivamente o diagnóstico de TDAH? O diagnóstico é essencialmente clínico e deve ser feito por um médico capacitado e com experiência no assunto, para avaliar as características clínicas do TDAH, que é subdividido em três tipos: o misto, que é o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; o subtipo, que é só desatento; e só o hiperativo. Há também a avaliação neuropsicológica, por psicólogos especializados, que através de testes, avaliam as funções cognitivas, fornecendo parâmetros mais objetivos, indicando, por exemplo, se a pessoa teve realmente falhas nos testes preliminares, sobre desatenção, impulsividade. O que é ser normal diante de tantos conceitos de transtornos comportamentais e cognitivos? É preciso pensar, primeiro, no conceito histórico-cultural de normalidade, que pode ser empregado de forma estatística, ou seja, o que está dentro da média, ou ocorre com a maioria das pessoas. E pode ter a ver com funcionalidade: alguém é normal se consegue funcionar bem na sua vida pessoal, profissional. Há também o padrão normativo social. E aqui entra essa principal questão: a de ter que se encaixar nos padrões e expectativas da sociedade. Os diagnósticos existem para que possamos identificar, na realidade, uma minoria de pessoas, um grupo que apresente um funcionamento mental parecido em alguns momentos, com sintomas também parecidos; um comportamento que ocorre em alguma frequência ou em alguma intensidade e que causa prejuízo para a vida delas. Todo mundo, por exemplo, pode ter falta de atenção de vez em quando, o que não significa que seja TDAH. Existem muitas formas de ser normal e me preocupa o fato de as pessoas estarem buscando se entender, conhecer a sua identidade e a sua normalidade, através de diagnósticos. O ser humano é um ser extremamente complexo, com inúmeras questões psíquicas e até espirituais que o tornam um indivíduo único. Ter TDAH é apenas mais uma característica, o que não significa não ser normal; apenas com uma característica diferente. Hoje, fala-se muito em neuroatipicidade, pessoas consideradas fora da média, que não estão atendendo a esses padrões e expectativas sociais. E aí, também não seriam pessoas normais? Acho que cabe muita reflexão, muita ponderação a respeito disso. O caminho de se buscar um diagnóstico não pode ser uma fuga de pais e educadores para o que precisa ser trabalhado no dia a dia com crianças e adolescentes, e que realmente demanda tempo, atenção e interesse? Sim. Recebo com muita frequência pessoas que já vêm com um diagnóstico pronto, realizado sem tanto critério quanto deveria, ou mesmo com um autodiagnóstico, baseado na internet, ou porque viu em um livro, ou porque uma pessoa diz reconhecer nele as características do TDAH. Eles vêm com uma busca de uma resposta e um tratamento, querem uma solução fácil para problemas que são extremamente complexos. Os problemas da vida envolvem coisas que têm a ver com o nosso funcionamento psíquico e até espiritual, eque estão relacionados com o funcionamento psíquico e espiritual dos que estão em volta também. Desde um primeiro momento, dependemos dessa relação para nos desenvolver, não só para aprender a falar, a comer, a se vestir, mas também para aprender a se relacionar consigo mesmo e com o outro, a lidar com as emoções e os comportamentos. Qual a causa da incapacidade de se concentrar, divagar em tarefas, procrastinar? Neurobiologicamente falando, o TDAH está relacionado a um menor funcionamento do córtex pré-frontal, a última região do cérebro que se desenvolve e que está relacionada a algumas funções cognitivas, como à capacidade de filtrar estímulos. Quando desejamos realizar algo, é preciso direcionar a nossa função cerebral para isso, ignorando-se outros estímulos, como pensamentos e sentimentos, para se terminar a tarefa. Isso é conseguir manter a atenção. Para quem tem TDAH, há um funcionamento mais baixo do córtex pré-frontal, o cérebro inibe menos esses estímulos paralelos. O que fazer com a falta de motivação e irritabilidade das crianças e jovens de hoje? Isso é muito individual. Cada criança é um caso, cada família é única. De modo geral, é preciso olhar com acolhimento, de forma afetuosa, ter uma escuta ativa de tentar entender o que está acontecendo. É preciso ouvir, dar espaço para que possam falar. E o melhor a se fazer é trazer essa criança ou jovem para perto, ouvi-los sobre seus gostos, interesses, dar espaço para se expressarem. Ouvi casos de mãe dizendo que a filha gostava muito de desenhar e pintar, e que a preocupava deixá-la fazer aulas de artes na escola, com receio de que se tornasse uma artista. Imagine o quanto essa criança já está sendo tolhida. O tratamento do TDAH sempre exige o uso de medicamentos? Se após um trabalho minucioso se concluir que de fato a criança tem TDAH, várias pesquisas mostram que o uso do medicamento é benéfico a curto, médio e longo prazo, diminuindo o risco de desfechos negativos, como acidentes domésticos, de trânsito, de envolvimento com drogas ilícitas e gravidez na adolescência. A questão é que muitas vezes são feitos diagnósticos de condições que não deveriam ser tratadas com medicação. O ideal é sempre se fazer essa avaliação de forma criteriosa. Estamos num momento em que a população sofre mesmo com tantos transtornos cognitivos e comportamentais ou existe um excesso de diagnósticos, incentivado por algum interesse, como o comercial? O número de pessoas no mundo aumentou. Somos hoje 8 bilhões e, consequentemente, vamos ver um número maior de adoecimento por diversos fatores: socioculturais, estresse, questões ambientais e também espirituais. Há um número maior de diagnósticos também porque no passado não se identificavam e não se tratavam muitas questões. Há realmente