Martha Rios Guimarães
Uma resolução do Conselho Nacional de Justiça, publicada em junho de 2026,
regulamentou o que o chamado ECA Digital já previa desde março: crianças e
adolescentes que produzem conteúdo de forma habitual nas redes sociais, com
monetização e geração de renda para suas famílias, passam a depender de autorização judicial para exercer essa atividade.
Há crianças que têm praticamente toda a rotina registrada: acordam diante das
câmeras, fazem refeições diante delas e encerram o dia da mesma forma. Há
adolescentes que reduziram ou abandonaram a vida escolar para dedicar-se
integralmente à produção de conteúdo. Meninos e meninas com poucos anos de idade acumulam milhares de seguidores, enquanto aspectos íntimos de sua vida passam a ser consumidos diariamente por pessoas que jamais conhecerão.
Esse cenário faz parte de um fenômeno mais amplo, frequentemente chamado de adultização. Mais do que assumir responsabilidades precoces, muitas crianças deixam de viver plenamente a infância para corresponder às expectativas do mundo adulto. O brincar, o experimentar, o errar, o aprender e até mesmo o direito à privacidade acabam cedendo espaço à necessidade de produzir conteúdo, manter audiência e corresponder ao olhar constante do público.
Na maioria das vezes, essa exposição não foi uma escolha da própria criança, mas de adultos, muitas vezes bem-intencionados. Em uma cultura que transforma curtidas e visualizações em indicadores de sucesso, nem sempre percebemos quando a infância deixa de ser vivida para se tornar um espetáculo.
Refletir sobre isso não significa condenar a tecnologia, mas reconhecer que proteger a infância continua sendo uma responsabilidade inegociável.
O olhar da Doutrina Espírita sobre a infância
A Doutrina Espírita oferece uma perspectiva muito rica para compreender esse tema. Conforme nos ensina, a criança é um Espírito imortal, temporariamente revestido da condição infantil. Ela traz consigo experiências de existências anteriores, mas Deus lhe concede a infância para favorecer um novo começo.
Nesse período, o Espírito mostra-se mais acessível às influências educativas. Sua fragilidade física e emocional desperta naturalmente o cuidado dos adultos e cria condições para que valores, hábitos e sentimentos sejam cultivados com mais facilidade. A infância, portanto, não existe para ser apressada, mas para cumprir sua finalidade educativa.
Essa compreensão amplia a responsabilidade de pais e responsáveis que têm a missão de educar Espíritos em processo de crescimento moral.À luz desses princípios, vale perguntar: até que ponto a exposição constante nas redes sociais favorece esse desenvolvimento? E quando transforma a criança em alvo permanente de julgamentos, elogios, críticas e expectativas de milhares de pessoas, estamos realmente respeitando o tempo de amadurecimento que a Providência lhe concedeu?
Outro aspecto merece nossa atenção. As crianças aprendem muito menos pelo discurso do que pelo exemplo dos adultos. Quando observam pais e responsáveis fotografando tudo, compartilhando cada momento e buscando continuamente aprovação nas redes sociais, tendem a compreender que visibilidade é sinônimo de valor. Aos poucos, a própria percepção de si pode passar a depender da reação do público.
A Doutrina o Espírita sempre ensinou que educar é, acima de tudo, oferecer bons
exemplos. Por isso, refletir sobre o uso equilibrado da tecnologia também significa olhar para nossos próprios hábitos digitais. A legislação estabelece limites importantes e deve ser respeitada. Mas a Educação Espírita vai além do cumprimento da norma. Ela nos convida a olhar cada criança como um Espírito em desenvolvimento, que necessita de tempo para crescer, aprender,brincar, errar, descobrir o mundo e construir sua própria identidade sem viver permanentemente sob os olhos do público.
Mais do que formar seguidores nas redes sociais, nossa tarefa continua sendo ajudar a formar consciências. E essa missão começa sempre pela proteção, pelo exemplo e pelo respeito à dignidade de cada Educando.