Martha Rios Guimarães
Na atividade de infância e juventude, muitos acreditam que nós, Educadores Espíritas, estamos ali para “ensinar”. No entanto, a convivência revela que os educandos também nos ensinam. Quando encontram um espaço propício, revelam compreensões que ultrapassam o esperado para a idade, nos oferecendo lições significativas como podemos notar nos casos que relato a seguir.
Lei da Igualdade na prática
Em uma turma de adolescentes, dois irmãos chamavam atenção pela diferença de tratamento que vivenciavam em casa. Ele, com 14 anos, era incentivado pelo pai a sair, namorar e “aproveitar”. A irmã, de 15, tinha a rotina rigidamente controlada: não podia sair sozinha, nem participar das mesmas experiências permitidas ao irmão. A situação refletia um padrão ainda comum em nossa sociedade, marcado por desigualdade de gênero.
Durante uma conversa sobre justiça, respeito e igualdade, o rapaz compartilhou algo que havia acontecido em casa. Contou que havia questionado o pai, dizendo que não considerava correto impedir a irmã de viver experiências que a ele eram permitidas. Disse, com clareza, que se o pai não aceitava que outros rapazes desrespeitassem sua filha, também não deveria incentivar o filho a tratar as meninas com desrespeito. E afirmou que sairia, sim, mas com consciência e respeito por quem se relacionasse com ele.
Não houve ali discurso ensaiado nem repetição de conceitos, mas a noção de igualdade, manifestando-se de forma espontânea, prática e responsável. Sua fala ensinou muito mais do que qualquer explicação teórica poderia fazer, mostrando que, quando o princípio é compreendido, ele se transforma em atitude.
Lei da Liberdade e respeito às escolhas
Em outra situação, um menino de 11 anos trouxe à conversa uma vivência delicada. Filho de pais separados, frequentava nosso Centro Espírita, mas também acompanhava a mãe em atividades da Umbanda. Ao falar sobre isso, deixou claro que havia feito uma escolha consciente pelo Espiritismo, por identificar-se com seus princípios e explicações. Ainda assim, ia com a mãe porque sabia o quanto aquilo era importante para ela – e porque compreendia que sua presença a fortalecia.
Disse, com tranquilidade, que frequentar outro espaço religioso não mudava sua convicção íntima. Ele se reconhecia espírita e sentia segurança nisso. Sabia, ainda, que cada Espírito tem direito a construir seu caminho e que amar alguém inclui respeitar sua forma de buscar a fé. Essa postura ensinou que fidelidade doutrinária não se confunde com intolerância, e que a vivência espírita amadurece quando é consciente, não forçada.
Coerência entre discurso e ação
Uma terceira experiência envolveu uma menina de 10 anos que frequentava o Centro Espírita, mas também acompanhava a avó à igreja. O motivo era simples e humano: ela amava a avó e não queria que fosse sozinha, já que mais ninguém da família a acompanhava.
Ao falar sobre suas vivências, a menina deixou claro que preferia ir ao Centro Espírita. Dizia sentir-se bem ali, gostar das conversas, das aulas e do ambiente. Mas o que mais chamou atenção foi o motivo adicional que apresentou para essa preferência: no Centro, ninguém falava mal da igreja de sua avó. Já na igreja, ouvia comentários negativos sobre o Espiritismo, com orientações para que ela deixasse de frequentá-lo.
Para aquela criança, o respeito foi decisivo. O fato de não atacar, não desqualificar e não impor tornou-se um sinal claro de coerência com o discurso de amor ao próximo. Essa percepção simples, mas profunda, deixou claro que o exemplo vale mais do que qualquer argumento verbal. Ela reconheceu, na prática, onde havia coerência entre discurso e atitude.
O que essas experiências revelam
Esses episódios mostram que a Educação Espírita Infantojuvenil não é um processo unilateral. Ao mesmo tempo em que apresentamos o Espiritismo, somos convidados a observar de que modo ele é assimilado e vivido pelos educandos.
Allan Kardec nos lembra que educar é auxiliar o Espírito em sua caminhada evolutiva, respeitando sua individualidade e seu tempo. Quando criamos espaços seguros para o diálogo, permitimos que essa evolução se manifeste, promovendo o crescimento mútuo. Educar, à luz do Espiritismo, é caminhar junto, reconhecendo que há muito a aprender com aqueles que chegam até nós com menos idade. Mas, muitas vezes, com grande lucidez espiritual.