15 de janeiro de 1875 – Primeira tradução de “O Livro dos Espíritos” no Brasil

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Leda Marques Bighetti

 

O tema pressupõe, para que se entenda sua importância, que retrocedamos no tempo.

Assim, voltamos aos fenômenos de Hydesville, a mediunidade das Irmãs Fox (1848), a propagação desses fatos e ideias para Alemanha e, daí principalmente para Paris com as “mesas girantes” que se tornaram modismo popular.

Despertando atenção do Professor Rivail, o resultado de suas pesquisas e estudos culminará em 18 de abril de 1857 com a edição de “O Livro dos Espíritos” quando passa a assinar-se Allan Kardec.

Antes desse tempo, aqui no Brasil, praticantes da homeopatia se reuniam a outros estudiosos que tinham interesse em torno do fluido vital, magnetismo, mesmerismo. Estes, se viram entusiasmados com a chegada em 1840, de Benoit Mure, francês, e João Vicente Martins, português, ambos médicos homeopatas, um deles psicógrafo, o outro clarividente, e que usavam passes como transmissores de energias complementares às consultas e tratamentos que realizavam.

Encontrando aqui várias personalidades interessadas pelo assunto, antes, portanto de Allan Kardec com o lançamento de “O Livro dos Espíritos”, constituíram um grupo para estudo da realidade transcendente, tido como o mais antigo que se tem notícia e liderados pelo médico e historiador Mello de Morais.

Em 1853, o jornal “O Cearense” publica notícias, informações sobre “as mesas girantes”.

Em 1865, Telles de Menezes funda o Grupo Familiar do Espiritismo que se coordenava segundo o que se ouvia dizer aqui e ali. A partir de 1866, uma tipografia em São Paulo, publica “O Espiritismo na sua Expressão mais Simples”. Em Salvador, 1869, sob a direção do nosso conhecido Telles de Menezes começa a circular a revista “Echo de Além-Túmulo”.

Em agosto de 1857, na cidade de Salvador, Telles de Menezes passou a ter conhecimento dos fenômenos que aconteciam na França, passando a corresponder-se com espíritas franceses e dando nova feição a um grupo que funda.

O Rio de Janeiro era a capital do Império e aí as primeiras sessões eram realizadas por franceses, muitos deles exilados pelo governo de Napoleão III.

De 1860 em diante, várias obras, sobre os assuntos que tanto interessavam a esses homens, são traduzidas. Nessa época, o Jornal do Commércio, em 23 de agosto de 1863, na sessão “Crônicas de Paris” comenta uma peça sobre Espíritos, levada no teatro em Paris. Allan Kardec, na Revista Espírita também a comenta, analisando-a como superficial,

sem aprofundamento “…pelo menos ele não julga pelo que não sabe” e complementa:

“Verificamos com satisfação que a ideia espírita faz progressos sensíveis no Rio de Janeiro, onde ela conta com número de representantes fervorosos, devotados. A pequena brochura “O Espiritismo na sua expressão mais simples” publicada em língua portuguesa contribuiu não pouco, para espalhar os verdadeiros princípios da Doutrina”. 

      Em 1873, é fundada a Sociedade de Estudos Espiríticos – Grupo Confúcio -. Em seus estatutos consta que deveria seguir todas as formalidades expostas em “O Livro dos Espíritos” e em “O Livro dos Médiuns”, podendo incluir o receituário gratuito da homeopatia e aplicação de passes. Fazia parte desse grupo, personalidades importantes do Império, entre elas o Dr. Travassos que contribui com aquilo que é lembrado como maior virtude do grupo – a tradução das Obras Básicas, e, para entender o seu momento, é que precisamos conhecer no clima, na situação limitada dos conhecimentos de então.

A família Travassos, composta por três irmãos, perseguidos em Portugal pelo regime dominante (1580/1640), aportaram em terras brasileiras em busca de refúgio. Um dos irmãos se radica na Ilha Grande, casa-se, constitui família e, em 1839, nasce Joaquim Carlos que após os estudos básicos, aos dezessete anos ingressa na Faculdade de Medicina, obtendo em 27 de novembro o grau buscado.

Dr. Travassos conhece a ideia espírita na época em que os dois opúsculos “O Espiritismo na sua Expressão mais simples” e “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, ambos sem o nome do tradutor, passam a existir em língua portuguesa. Ele, porém, como integrante da elite educada do país, estudava os livros básicos da Codificação no idioma em que haviam sido escritos – o francês.

Fervoroso adepto já o vem unido a outros estudiosos interessados nas causas, leis, constituindo e integrando a Sociedade de Estudos Espiríticos – o Grupo Confúcio -, considerado o primeiro centro espírita da capital do Império. Dr. Travassos era o Secretário Geral.

Nessa época, a massa da população não lia francês. Grupos que se diziam espíritas surgiam aqui e ali, porém, improvisavam sem ao menos terem conhecimentos mínimos.

Analisando tudo isso e principalmente a boa vontade das pessoas, tomou a si a tarefa de traduzir “O Livro dos Espíritos”. Adota o pseudônimo de Fortúnio* e em 15 de janeiro de 1875, em tradução da 20º edição francesa surge a primeira edição de “O Livro dos Espíritos” em língua portuguesa pela Editora B.L.Garnier.

Deve-se também ao Dr. Travassos, a “conversão” do Dr. Bezerra, pois tão logo o livro saiu do prelo, fez questão de oferecer ao grande amigo, com singela dedicatória, o livro que despertará o ilustre político à Doutrina Espírita.

Fonte: Personalidades do Espiritismo – Paulo A. Godoy/ Grandes Espíritas do Brasil – Zeus Wantuil/ Homeopatia e Espiritismo L. S. Thiago

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